O lugar tentava ser uma praia. A praia tentava ser um litoral e a mata atlântica - decadente, depredada, deprimida - caía em pedaços em torno da baía e em torno das gentes e em torno daquele dia em que o sol descia com ódio especial sobre a minha cabeça. Sobre a minha cabeça e também sobre a praia e na praia dançavam os destroços sendo intimidados pela maré que invadia implacável a faixa de areia. Momentos empilhados ao sul do Equador, um sobre o outro, me mostravam um espetáculo catastrófico: os destroços reluzindo, nós nas tripas dos passantes, grãos de areia que guardam mundos, etc etc etc. As fachadas dos bares estavam todas cimentadas: nada se abria e nada se fechava. Construções e danações findavam ensimesmadas e mais nada. Nada nunca. Nada nunca e daí, de repente, alguma coisa. Já não saberia dizer quanto tempo fazia, se eu estava debaixo daquela bananeira faziam dois segundos ou dois milênios, mas daí alguma coisa. Através das ondas de calor, surgiu Estrangeira uma forma descendo a ladeira de terra em direção à praia mais feia do litoral palhocense. Com os respectivos pés fincados num presente – não o presente, mas um presente qualquer - nos olhamos em aneurisma. Era o reencontro como novo experimento social, aplicando o que chamei de metodologia-martelo, e um bar se abriu de repente, como se algum nó no tecido da realidade fosse desatado. Nas personas mafiosas de hollywoodianos, caminhamos precisas até o balcão. Em vez de um drinque, a Estranha pediu shots de “será” e me pagou um silêncio. Repassei sete pensamentos fúnebres e ela ainda ali, com as mãos explícitas e alma encerrada. Finalmente, disse: vá afiar sua poesia e depois volte pro abate.
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Fazia mais ou menos uma semana – ou talvez fizessem cem anos, quem se importa - eu tinha um cigarro Gift nos lábios e conversava com uma manicure. Foi aí que o único barman disponível na Enseada contornou o balcão do bar e veio até minha mesa me empurrar um guardanapo de papel surrado que continha os seguintes dizeres: “Botar Lispector e Saramago num saco. Mandar para a Sibéria. Este é o plano. Depois, sequestrar o Duque e lhe presentear com um tiro de pistola (a pistola está pendurada no teto faz sete dias, baby, procure direitinho que você encontra). Não é você que gosta de caçar e matar os instantes? Pois boa sorte neste longo segundo que te aguarda.”. O barman não ficou lá para ver o desfecho, e nem a manicure. Eu estava só no bar em minha cadeira monobloco patrocinada por uma marca de cerveja, o que não diz nada. As monobloco estão na Indonésia em 2006, em Bagdá em 1999, em Luxemburgo no verão de 1988 e eu, eu bebo cervejas diferentes em cada um desses momentos.
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Voltei para a casa carregando energias perplexas, insanizadas. Visões do Deus e do Diabo que vestem Prada, visões do Deus e do Diabo que fumam lata, visões de deuses e diabos encostados em postes e à sombra de bananeiras. Visões. Seria esta minha vertigem uma residência artística, uma resistência artística, seria aquilo uma performance? Sabe-se lá. Agora é pagar para ver e quem sabe até dobrar a aposta: planejar os pormenores, local e data, espaço-tempo.
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Fiquei em suspense por um bom tempo. Lispector e Saramago não queriam saber de nascer. Eu esperava olhando a pistola pairar do teto, com o bilhete do cargueiro para a Sibéria parado num canto sem muito o que dizer ou fazer e esperava também com a poesia afiada e bem guardada no fundo da gaveta. Tudo em stand by: a poeira suspensa no ar, os maruins rondando as lâmpadas. As manicures sumiram de novo e com elas se foram os bares. Eu me perguntava: será que algum dia? E também me respondia: não, é provável que não, é provável que nenhum dia. E ainda que eu tivesse um lápis, que é tão arma de fogo quanto uma pistola, ele parecia um delírio. Era como se o lápis risse de desdém, como se soubesse: se você escrever uma pistola, terá de escrever o disparo. Mas não parecia certo, não parecia coerente, e aí eu me perguntava: o que faz com que se aperte um gatilho? E dessa vez eu não me respondia, não tinha coragem, o caminho seria longo e enlouquecedor: o que faz um dedo no gatilho, o que faz um braço, uma cabeça, um olho, o que faz um animal, o que faz um desejo, um inconsciente, um cérebro, o que faz um neurônio, o que faz vida baseada em carbono, o que faz, afinal?
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Assim se foram-eram-seriam os dias do clímax. A matéria fazia manha e se demorava para condensar, nada se criava por associação. Eu pensava na lenda que me contaram, a lenda de que houve um povo chamado grego e que seus doidos dogmas organizavam o universo para entende-lo. A esse universo entendível chamavam Cosmos, e o hábito das coisas se combinarem à procura de significado gerou cosmologias, cosmogonias e cosméticos. O Cosmos, por sua vez, só pode ser organizado e entendido com a ideia de Caos, seu oposto, um estado anterior onde nada se discernia e as coisas procuravam por cisão, dissociação, ruptura. Não o amor e o ódio, não o espaço e o tempo, mas amor-ódio, espaço-tempo.
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Em exaustão com a poeira pairando e o pensamento empoeirando, saquei o telefone e disquei nove números de caos, fazendo a linha direta com o Duque. Ele perguntou sobre a Clarice e o José e eu respondi que os cancelei, que eram muito cosméticos, e que estava só na Enseada. “Cê devia aparecer por aqui, aliás... traz um livro do Hemingway”.
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